Era uma noite como todas as outras. A diferença estava naquilo que poderia se chamar de concreto. Não que não pudéssemos de forma alguma diferenciá-la em suas especificidades; pelo contrário, poderíamos facilmente vê-la como é, única, impossível de se colocar em um mesmo grupo. Porém, como objeto de vislumbre limitado, era simplesmente como outra qualquer. Já não havia em seus olhos mais nada. Aquela visão chocante de sua própria imagem o assustou. Assustou a quem, muitos hão de se perguntar. Pois bem, assustou aquele que lhes conta essa história sobre uma noite qualquer. O seu recurso era possivelmente apenas perguntar para todos quem ele era; e mesmo assim, o medo das respostas doloridas fez com que seu coração se fechasse. Seus melhores momentos são aqueles nos quais ele pode simplesmente desabilitar o externo, voltar-se para o interno e crer no concreto. Depois de muito tempo, ele reafirmou para si mesmo seus dogmas vazios, suas vontades desvairadas e esdrúxulas de tentar com doce facilidade controlar sua indomável vida. Pobre tolo juvenil! Mal sabe ele que já perdera o controle ao tentar tê-lo. Ninguém pode mandar em seus sentimentos, afinal, o cérebro é um parvo bobo, que não segue pelas vontades de seu soberano. Obedece apenas à sua própria loucura, e dela, surgem suas mais belas artes circenses, com as quais as ciências e suas razões são desfeitas na primeira piada do primeiro ato. Mas, tal como um devaneio, descontrolado e desenfreado, esse passa, e com coragem, pode-se voltar à deliciosa variabilidade da vida. Parte de toda razão se encontrar no desejo de entender o que se quer; pois veja bem, desejamos saber o que desejar! Não era diferente com o nosso pobre guri da noite qualquer. Ele também estava nessa, porém, seu coração parara de lhe pregar peças e agora lhe mostrava um sentido abruptamente correto para si. Ele estava entendendo aos poucos o que negava com palavras. Mas, a vida tratou de lhe mostrar o óbvio: o que se fez no pretérito da fase não há de se modificar com uma simples conjectura; o fato existe, pode ao máximo a situação ser modificada no futuro, porém nunca alterada tal como foi antes, evitando que o que quer se modificar não ocorra. E foi assim que o desejo que julgou encontrar tornou-se mais um de seus devaneios irritantes, tanto para se lembrar quanto para se contar, então se me permite caro leitor, vou poupá-lo da razão venenosa das palavras que aqui escrevo. Peço apenas que acredite em mim, a mesma não vale tanto quanto justificar a concretude do que lhe digo. Pois bem, ele desejou o momento frio e caótico de sempre. Há tempos que ele sempre o repete, pelo mesmo desejo que corrói seu corpo. Ele o faz pelo coração duro, frio, que não possa ser cortado ou perfurado, um coração brilhante e ao mesmo tempo protetor. Ele o faz por seu coração de aço, o qual não seria ferido. A camada interna está protegida? Do que lhe adianta? Enrijecer suas idéias não o fará mais forte, apenas o tornará mais desumano. Não, ele busca uma proteção externa ao mundo, a sua fuga, a sua solidão. Esse é o mistério que assola o jovem da noite qualquer; ele nunca desejou o céu, mas se perguntado para onde queria ir, ele não saberia dizer. Só queria ficar longe do abismo, que acima de tudo, leva a assumir a morte de sua poesia. Porém, tudo que lhes digo é na manhã seguinte, onde ele está sóbrio e sua cura se chama conformismo. Toda a concretude observada é justamente o que ele não quer admitir, embora claro esteja. Não esteve louco ao sonhar com o findável. Esteve louco ao escrever que o esteve.
Att,
Bruno Costa.
Bruno Costa.
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