Pela enésima vez, talvez a última, pelo menos nos próximos meses, um novo começo, um novo blog. Acho que já repeti isso tantas vezes que caio no descrédito para com meu público, que mesmo pequeno, sempre foi fiel e conservador. Mas o que pude fazer, O Poeta e o Caleidoscópio encerrou-se por si só, e tudo o que sobrou foram as poucas lembranças das poesias. Alguém ainda recorda? Fase Romântica, Fase Sensual e a mal explorada Fase Platônica? Os textos sentimentais e melodramáticos com retoques de criação poética? Acredito que não. Se lembram-se, não deveriam, essas fases passaram como tudo deve passar e evoluir. O sentido da vida, é esse: Desconstruir, Refazer e Remodelar. Sempre abertos aos novos parâmetros da existência humana, sempre desenvolvendo ao máximo a nossa criatividade e visão de mundo, e o melhor, desenhando a realidade nos toques de puro criacionismo exacerbado e modelador. Claro, sempre com o toque do talento humano, modéstia à parte, o meu é a escrita.
Mas, ainda assim devo várias explicações e talvez nem mesmo linhas e linhas sem fim poderiam justificar meus atos. Agora sobrou pouca coisa (nem se quer salvei os poemas) já que meu objetivo era destruir toda a minha criação poética e fazê-la de novo, do zero, evoluí-la. Meus traços românticos e simbolistas eram válidos, mas contrastavam drasticamente com o meu objetivo que sempre foi escrever sobre o mundo. Eu descrevi muitas vezes coisas indescritíveis, e outras tantas mal pude me conter nas palavras, correndo o imenso risco de me tornar prolixo. Mas um escritor deve dar asas a imaginação, então tanto faz. Provavelmente o interesse geral seja o que virá de agora para frente; Mas o que poderei eu dizer? Não prevejo. Talvez não venha nada, talvez venha tudo. O importante é sorrir, é chorar e existir. Sem mais delongas (já me tornei prolixo novamente) encerro por hoje e por essa semana os posts do blog.
Antes que me cobrem - sei que devo muito, mas aguardem - não tem poesia minha essa semana. Mas eu lhes deixo com um mestre, talvez o melhor de todos em poesia - depende do conceito - Vinicius de Moraes.
O poeta
IQuantos somos, não sei... Somos um, talvez dois, três, talvez, quatro; cinco, talvez nada
Talvez a multiplicação de cinco em cinco mil e cujos restos encheriam doze terras
Quantos, não sei... Só sei que somos muitos – o desespero da dízima infinita
E que somos belos deuses mas somos trágicos.
Viemos de longe... Quem sabe no sono de Deus tenhamos aparecido como espectros
Da boca ardente dos vulcões ou da orbita cega dos lagos desaparecidos
Quem sabe tenhamos germinado misteriosamente do sono cauterizado das batalhas
Ou do ventre das baleias quem sabe tenhamos surgido?
Viemos de longe – trazemos em nós o orgulho do anjo rebelado
Do que criou e fez nascer o fogo da ilimitada e altíssima misericórdia
Trazemos em nós o orgulho de sermos úlceras no eterno corpo de Jó
E não púrpura e ouro no corpo efêmero de Faraó.
Nascemos da fonte e viemos puros porque herdeiros do sangue
E também disformes porque – ai dos escravos! não há beleza nas origens
Voávamos – Deus dera a asa do bem e a asa do mal às nossas formas impalpáveis
Recolhendo a alma das coisas para o castigo e para a perfeição na vida eterna.
Nascemos da fonte e dentro das eras vagamos como sementes invisíveis o coração dos mundos e dos homens
Deixando atrás de nós o espaço como a memória latente da nossa vida anterior
Porque o espaço é o tempo morto – e o espaço é a memória do poeta
Como o tempo vivo é a memória do homem sobre a terra.
Foi muito antes dos pássaros – apenas rolavam na esfera os cantos de Deus
E apenas a sua sombra imensa cruzava o ar como um farol alucinado...
Existíamos já... No caos de Deus girávamos como o pó prisioneiro da vertigem
Mas de onde viéramos nós e por que privilégio recebido?
E enquanto o eterno tirava da música vazia a harmonia criadora
E da harmonia criadora a ordem dos seres e da ordem dos seres o amor
E do amor a morte e da morte o tempo e do tempo o sofrimento
E do sofrimento a contemplação e da contemplação a serenidade ínperecível
Nós percorríamos como estranhas larvas a forma patética dos astros
Assistimos ao mistério da revelação dosTrópicos e dos Signos
Como, não sei... Éramos a primeira manifestação da divindade
Éramos o primeiro ovo se fecundando à cálida centelha.
Vivemos o inconsciente das idades nos braços palpitantes dos ciclones
E as germinações da carne no dorso descarnado dos luares
Assistimos ao mistério da revelação dos Trópicos e dos Signos
E a espantosa encantação dos eclipses e das esfinges.
Descemos longamente o espelho contemplativo das águas dos rios do Éden
E vimos, entre os animais, o homem possuir doidamente a fêmea sobre a relva
Seguimos… E quando o decurião feriu o peito de Deus crucificado
Como borboletas de sangue brotamos da carne aberta e para o amor celestial voamos.
Quantos somos, não sei... somos um, talvez dois, três, talvez quatro; cinco, talvez, nada
Talvez a multiplicação de cinco mil e cujos restos encheriam doze terras
Quantos, não sei… Somos a constelação perdida que caminha largando estrelas
Somos a estrela perdida que caminha desfeita em luz.
Ps.: Lembrando que esse é só um trecho do poema, se quiser o completo, você acha
aqui.