sábado, 20 de fevereiro de 2010

Afeto



Afeto

Bruno Costa

Prende-me fortemente em seu braço
Tortura-me imensamente com seu afeto
Escraviza-me eternamente com seu traço
Dá-me vivamente algo comum, concreto

Não me jures algo que não vá cumprir
Mas não deixa de dizer-me o impossível
Não prometa que eu não vá me sentir
Menos com o seu amor do que o visível

Faz-me sonhar toda a bela noite contigo
Perder o que nunca tive em hora qualquer
Seus pensamentos, leve somente consigo

E não ouse me dizer o que eu não quiser
Suma a ilusão do seu afeto e seu castigo
E deixarei meu coração pro que der e vier.

A Morte dos Sonhos

Calma, a luz clara entra pela janela. O vento vem devagar, uma brisa, que talvez entre pela fresta da porta da sala, passe pelo corredor e pela cozinha, antes de adentrar o quarto. As cobertas emaranhadas, o lençol já jogado nos pés. O corpo preguiçoso, como se a noite toda não lhe bastasse para o descanso, e a vontade de ficar jogado no conforto dos travesseiros por horas a mais. O estômago se contrai suavemente, informando o desejo por se alimentar. Hora do café da manhã, segundo alguns estudiosos a refeição mais importante do dia. Suavemente senta na cama, os pés procuram os chinelos, que parecem estar jogados embaixo do móvel. Os braços se esticam, a coluna é colocada no lugar, os ossos estralam aos poucos, um alongamento corajoso logo pelo começo do dia.
Caminha até o banheiro, joga água no rosto, e observa-se no espelho. A barba por fazer, os olhos esverdeados com a luz da lâmpada, amarela, que deixa sua pele com uma tonalidade doentia; o cabelo dourado é molhado na água da pia, deixando escorrer o líquido por demais, molhando o tórax nu e desprotegido. As mãos buscam a toalha, seca o rosto, escova os dentes como aprendera há muito tempo no jardim de infância. Se passou muito tempo desde aquela época, e como todos, acredita que essa foi a mais bela de sua vida, muito embora não tenha feito nada de especial na mesma. Faz a barba, e a toalha, agora úmida, pinga suavemente após todos os procedimentos.
Vai até a cozinha, abre a geladeira, pega o leite, queijo, presunto, manteiga... Um pouco do suco da noite anterior. Vai à busca do pão de forma, prático para quem tem que sair rápido. Olha a mesa da Sala de Jantar, grande e para quatro lugares, apesar de morar sozinho. Sente falta de alguém com quem dividir a refeição, fica feliz por poder fazer o que quiser. Toma um café rápido, com tudo que sempre come. Eu deveria comprar peito de peru, mas, não poderei pagar a internet se continuar a fazer maiores gastos, pensa. Vai até o quarto, arruma a cama e sobre ela coloca as roupas separadas no dia anterior. Lava a louça na cozinha, vai até o banheiro e toma banho. Troca-se. Os projetos largados sobre a mesa do computador são rapidamente organizados para serem entregues ao cliente. É uma bela ponte, afinal.
Olha para o relógio, pensa em ligar para sua namorada, desiste, faz isso mais tarde, talvez no trabalho. Olha para o relógio de novo, faltam quinze minutos para sair, mas não quero me adiantar. Bom, sairei, não tenho nada o que aguardar. Abre a porta, tranca-a. Os pés caminham pela escada, são apenas três andares afinal. Logo toma a rua, e o apartamento, pequeno, fica para trás a cada passo. Na esquina, o ponto, onde várias pessoas aguardam o mesmo ônibus. Um pouco de calor humano, relembrando as palavras de anos atrás, quando ainda pretendia sair de um lugar como aquele. Alguns momentos depois, o ônibus chega lotado, uma batalha interessante para se entrar. Depois de alguns minutos, todos se acomodam, e o tubo com os seus projetos fica paralelo ao chão, talvez na altura de seus ombros, carregado amigavelmente por três pessoas, embora as mesmas não concordem com a afirmação.
Uma hora depois, ele desce. Agora vem o metro, embora mais rápido, não espera menos comodidade do que o transporte anterior. Depois de alguns instantes, chega a sua estação. Ele desce, caminha alguns metros, passa por pessoas e mais pessoas. Uma bela moça, cabelos ruivos e curvas maldosas, passa por ele. Seus olhos se desviam no seu rebolado, mas a mesma parece ignorá-lo, como normalmente as pessoas o fazem. Nada de especial, era o que ele era e se considerava. Lembrou da namorada, sentiu uma pequena consciência pesada, que logo passou ao olhar para a porta do escritório. Uma acolhida amigavelmente falsa, como todos os dias. Vai ao seu lugar, abre os projetos, escolhe os necessários e se dirige ao chefe. Mostra-os, enquanto tenta explicar calmamente as suas idéias.
Alguns olhares depois, o projeto recebe o carimbo de rejeitado. Corte de gastos supérfluos, e olha só, uma noite a menos de vida. Era uma bela ponte, afinal. Depois de um tempo, a base estrutural é repassada a um dos arquitetos consagrados do escritório, que retoques depois, de puro mau gosto, pensa ele, tem o projeto aprovado com as modificações. A paga pelo trabalho, dez por cento do valor do projeto pela base, quarenta para o arquiteto que gentilmente corrigiu o projeto e cinqüenta do escritório. Sexta Feira, quase mais um fim de semana em casa, estudando para passar na pós. Ele sorri, assina os documentos de seus dez por cento, e senta-se para trabalhar em outros dez por cento seguintes, dessa vez uma pequena praça ao lado de um pequeno condomínio.
O dia acaba, e ele não liga para a namorada, como previsto. Seu corpo dói, seus olhos enchem-se de lágrimas. Não, ele não fez nada, nem se feriu por nada. O braço limpa as mesmas, antes de passar o cartão e atravessar a catraca. O metro, o ônibus, o apartamento. Ele queria ir para a Itália, talvez para a França ou Inglaterra. Comprar um Sedan, morar na Pompéia se possível. Queria poder sair aos Domingos, ver o Sol se pôr com um amor, que distante, não mais o via. O que é viver? O que é o novo? Perguntava-se sem respostas. Era ele, o engenheiro, era ele, o sobrevivente. Depois de algum tempo, fica mecânico. Um amor de verdade, daqueles de fazer sorrir, uma vida de verdade, daquelas de fazer inveja a todos... Ser notado, mas ele não era nada demais. Só mais um na multidão. Um deserto com pessoas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Amor, amor, para sempre amor



Amor, amor, para sempre amor
Bruno Costa

Com palavras não se escreve uma vida
Sem sonhos e desejos menos se faz
Não adianta ser o grande poeta da Ilíada
Se não sabe ver o bem que o amor trás

Você me disse que era puro, verdadeiro
Jurou em lábios, sangue, que era eterno
Deixou meu coração sem um paradeiro
E largou o meu amor ao longo inverno

Disse que por outro agora seu coração vibra
E nada mais do que o meu passado você é
Minhas lágrimas, meu sentimento equilibra

E como um dos seus amigos eu fico em pé
Vendo o meu romance por poucas libras
Amor, amor, para sempre amor, a minha fé.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Até chegar a hora

Até chegar a hora
Bruno Costa

Todos os dias que eu acordo eu penso
E relembro momentos que me fizeram
Construíram o que sou e o meu senso
De todas as pessoas que aqui estiveram

Por isso arrisco: meu pensamento é seu
Não existe mais destino sem adorar-te
Por você eu posso até ser um anjo ateu
Só para te chamar de deusa e louvar-te

Espero seu amor como uma nova vida
Por ele não existe um tempo ou um agora
Seu amor é o meu cálice, minha querida

Espero-te o necessário, muito embora
Eu sofra e minha vida seja só descolorida
Ainda assim te espero até chegar a hora.