sábado, 10 de outubro de 2009

Poeta às Avessas

Sem razões, sem explicações. Não existe um modo de se delinear alguém ou definir quem essa pessoa é. Muito menos conseguimos definir a nós mesmos, já que a nossa perspectiva sempre leva em conta os nossos próprios sonhos e desejos, e nunca uma visão exterior aos nossos próprios sentidos. Somos nossas próprias palavras, embora abandonemos as nossas perspectivas individuais pelas prerrogativas externas e façamos dos desejos alheios a nossa própria individualidade. Preservamos apenas parte do que consideramos nosso – embora não tenhamos nada propriamente nosso que já não tenha sido pregado em um contrato social – e isso faz de nós um pouco mais do que simples massa de retorno, um pouco mais do que o resultado de uma construção social. Deixamos os nossos instintos e a nossa individualidade para sermos um ser social, apresentável e contido, seguidor das regras e pressupostos coletivos.
Não sou muito mais do que esse pressuposto. Uma imagem social, um ser contido e figurativo num mundo ao qual não escolheu. Nascido em uma época, nascido em um local e com uma vida. Determinado ao fracasso ou à glória, determinado a agir como um homem ou como um Deus, isso não diferencia muito mais dos anseios dos diversos homens que se declararam únicos e especiais. Ser diferente é ser especial, embora poucas pessoas possam afirmar que são diferentes; Todos nós desejamos fugir à inércia social, e claramente deixar essa situação de constrangimento em que não podemos expressar o que realmente sonhamos e queremos. Quando alguém diz que você não pode fazer algo e lhe proíbe de fazê-lo simplesmente está lhe dizendo que o seu desejo é inferior à sociedade. Já dizia o iluminista “O homem abre mão de sua liberdade para ter segurança”, e atualmente nós concluímos que além de estar certo, ainda aumentamos o seu conceito de segurança e liberdade, entregando além de nossa liberdade física e emocional, a nossa razão e as nossas idéias;
Porque o homem que vende seu corpo e seu tempo, trabalha pelo sustento e lucro alheio não pode vender além de tudo as suas idéias? Somos a catástrofe do processo, o meio termo inócuo e sem vida. Deixamo-nos para trás e somos o que nos é imposto. Mesmo desejando a mudança, nos entregamos ao sentir próprio. Escolhemos o eu, e esquecemo-nos do que construímos. Não existe visão de um ser isolado e que viva exclusivamente do eu, independente de qualquer outra pessoa. Dependemos única e exclusivamente das nossas relações e contradições, das brigas e das conciliações, dependemos da morte e da vida de outrem. Não existem idéias sem raciocínio prévio. E o nosso mundo está carente de idéias, pois nos largamos a pensar no coletivo e esquecemos o individual, mas ao mesmo tempo pensamos em nós mesmos, e esquecemo-nos do que a nossa vida é circundada: pessoas. Embora essa ambigüidade seja clara, ainda assim continuamos no processo do famoso lema: “dividir para conquistar”, e somos a suprema divisão conjunta.
Que visão de mundo nós podemos ter a partir dos dados criados? Não existe reposta. Se houvesse tal explicação não existiriam filósofos e menos ainda sociólogos. A nossa própria existência culmina na necessidade de criar esses personagens que expliquem mesmo que um pouco o nosso próprio destino. Os poetas se extinguiriam, já que a contradição humana some, e essa é sem dúvida a fonte de toda a criatividade, a fonte de toda a realização, a eterna contradição humana. Alheios e participantes do processo, nós somos a massa e somos o individuo. Não sabemos se o que importa é o bem estar coletivo ou a satisfação das nossas próprias vontades; Facilmente manipuláveis e alienáveis. Nossos vícios e nossos ópios que nos fazem esquecer a razão de ainda estarmos presentes e contínuos do processo, engrenagens que querem ascender a engrenagens. Não há saída nem visão de mundo agradável a nós mesmos. Criticamos e botamos a culpa no externo, nunca é contra a nossa própria razão, e sempre é contra a razão coletiva. Quem nunca ouviu a frase: “Devemos nos unir e mudar a situação!”, pois esta é sem dúvida a maior manobra de reação entre as chamadas “cabeças pensantes”.
Mas até mesmo em um meio de revolta à maré, revolta ao processo e contra as imposições sociais, o mundo cria e controla a alienação inversa; Pessoas que se julgam superiores a análise alheia e que divulgam um ideal aos quais poucos conhecem. A alienação de esquerda – um termo político, mas que cai bem a definir tais revoltosos – que se julgam críticos do sistema e da suas contradições, mas tão embora sejam apenas negadores totais e absolutos da atual realidade, e que não enxergam nada de bom e aproveitável na existência humana. Tal julgamento é tão ou mais danoso e nocivo a mudança da realidade social medíocre em que vivemos quanto se invertermos a consciência: a alienação total. Ao negar o mundo e rejeitar os traços existentes lutando por uma mudança radical e sem base estrutural eles danificam as próprias idéias. O ato de rebeldia não é nada mais do que pura vadiagem caso não ataque a base do sistema. Criticar o sistema sem atacar profundamente suas bases e sua existência não é tão melhor do que não criticá-lo.
Assim sendo, os homens não criaram uma forma de convivência pacifica e igualitária. Somos nada mais do que resultado da união de seres diferentes e iguais quando unidos em multidão. O anseio de milhares morre na sede de um só. E ouvimos poesia, vamos ao teatro e tocamos harpa em meio ao esquecimento e a dor de todo o sempre. Assim vivemos e assim morremos: simples anjos esquecidos em meio à terra dos homens. E no meio de tanta escuridão e dúvida, sempre surge um raio de sol, que indica o começo de um novo dia, onde venderemos novamente a nossa alma e a nossa liberdade em troca da segurança da rotina. E a quebra de tal paradigma é punida na forma da perda do ópio e do vício de cada dia, que nos faz bem enquanto dura. Não há saída do processo, enquanto gostarmos do processo. Protestar sem largar os próprios vícios é ineficaz. É enganar a si próprio, coisa que com o tempo, se torna outro vício.
Portanto, sou a existência construída pelo tempo e pelas contradições humanas. Um ser individual e coletivo, que prefere visualizar mais coisas a apenas uma situação momentânea e passageira, que prefere ver o que foi construído e pode ser modificado. Não duvido que as minhas próprias conclusões tenham sido construídas a partir de vários conceitos sociais, e que eu também seja criatura surgida das ambigüidades modernas. Mas em meio ao desvairo e a desistência das pessoas, a sua inércia social, seja essa como alienação ou como negação dos preceitos, sou uma pessoa que pensa mudar o mundo, nem que seja o seu próprio. Fui forjado ao fogo das armas da revolução com o mármore do palácio real, tendo como acabamento o ferro das cruzes cristãs lustradas com os óleos das meretrizes do maior Saloon de Paris; Existo como o eterno paradoxo das idéias humanas, desde as crises emocionais ao grito dos revoltosos vitoriosos. Não existo em mim, já que nenhum de nós existe em si mesmo. Não tenho nada demais, mas prezo pelo valor das minhas idéias. Sou a fina flor das contradições humanas, a jóia lapidada onde mil poetas morreram sobre os cadáveres de mil filósofos; Sou a pedra que não virou angular, sou o meio e o fracasso do processo, muito prazer, sou Bruno Costa.

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